terça-feira, 1 de novembro de 2016

Acampamento de costura nas montanhas


Desembarquei em uma Nova York com céu azul e temperatura gostosa, nada daquelas correntes de vento geladas que surgem nessa época do ano. Ponto de encontro: entre as ruas 10 e 11, esquina com a 8 Avenida, bem pertinho da Penn Station. 

Foi moleza encontrar o grupo: 100 mulheres se apertando na calçada com malas gigantescas. Quem passava por ali poderia até pensar que se tratava de uma excursão de compras na Big Apple. Bobinhos! Dentro daquelas malas havia réguas, papel de molde, tesouras e aviamentos.

Ninguém no grupo conseguia disfarçar a cara boba de felicidade. Fiquei quieta observando o burburinho e pensando: ai que coisa boa e segura é estar entre um grupo de costureiras. Logo uma senhora puxou conversa comigo. Deixei minha mala com ela e corri em um Starbucks para buscar um lanchinho antes de partirmos.

Dois ônibus nos levaram até Frost Valley. Só a estrada já valia o passeio. Aos poucos os prédios e belas construções de New York foram substituídos por árvores de cores que eu nunca tinha visto. Folhas laranja, amarelo, dourado e vermelho tomavam conta das montanhas. Eu até levei um livro, mas me pareceu meio idiota trocar a paisagem na janela pelas páginas que eu poderia devorar em casa.




O Camp Workroom Social é uma idéia mirabolante da novaiorquina Jennifer Wiese. Ela tem um estúdio no Brooklyn onde durante o ano recebe artistas e alunos para cursos de fim de semana. Eu estive no estúdio e prometo um post sobre isso.

Essa foi a segunda edição do acampamento, mas o profissionalismo e a organização eram tão impressionantes que parecia já ser realizado há décadas. Os summer camps são uma tradição  na cultura americana. As crianças começam a participar cedo, por volta dos 8 anos. E eles costumam ser temáticos. Tem camp de esportes, de crafts, de dança. 

O acampamento reuniu os maiores nomes da costura moderna nos Estados Unidos, um mercado conhecido aqui como "indie patterns", dos moldes independentes.  Ao nos inscrevermos já tínhamos que optar por um dos 6 cursos. Eu me inscrevi 4 meses antes e já encontrei pouquíssimas opções. Alguns cursos foram muito concorridos e já estavam lotados. 

O desembarque no YMCA Frost Valley, em Catskills Mountains, NY

De boca aberta diante da beleza do outono nas montanhas!

Das 100 pessoas que estavam no camp, meu porto seguro era a Isabelle Durieux, minha amiga belga e vizinha em DC
O esquema era de acampamento, mas ufa... não ficamos em barracas. Dividimos quartos grandes com outras campers. Confesso que me bateram os 10 anos de idade quando vi que ia dormir em cima de um beliche pela primeira vez na vida! Bem divertido.

Encontramos os beliches com nossos nomes e uma sacolinha de mimos: mapa do YMCA Frost Valley (extremamente necessário! O lugar era gigantesco!), crachá, uma lanterna de cabeça (muito usada! À noite não dava para enxergar um palmo), camiseta, programação detalhada com horários (ai de quem atrasasse! Aqui tudo funciona pontualmente) e um bordado para guardar de recordação.



DIA 1 - Saímos de New York City pontualmente ao meio dia. Chegamos a Frost Valley antes das 4 da tarde. Depois de mostrarmos passaportes e documentos, conhecemos nosso alojamento, deixamos malas e seguimos para a primeira reunião. Fomos apresentadas às professoras. De lá, fomos jantar no refeitório. Ah! Um costume americano que já me adaptei e adoro: jantar aqui é servido às 6 da tarde. 

Na primeira noite, depois do jantar, já fomos a um evento super esperado: a festa do pijama. Foi demais! Fomos incentivadas a levar pijamas costurados por nós. Imagina isso? Um jantar com 100 costureiras vestidas com pijamas handmade? 

Teve vinho, champanhe, docinhos gostosos e muitas fotos (opa! Esqueci de tirar foto do meu pijama....). A festa foi em uma casa construída em 1901 que está conservada exatamente como era. Piso e paredes de madeira, quadros, esculturas e móveis de época. Um charme! 



Botas e pijamas porque a noite estava gelada! 10 graus!
DIA 2 - O segundo dia começou da melhor forma possível! Antes do café da manhã, às 7 em ponto, nos reunimos para fazer uma caminhada de 1 hora nas montanhas. Sim, estávamos meio lentas depois do vinho na festa do pijama, mas não íamos perder a vista, né??

Detalhe: entendemos o nome do vale. O gramado em frente ao prédio do alojamento amanheceu todo congelado.



Trilha às 7 da manhã. Fazia 6 graus.


O prédio do nosso alojamento. Aqui estavam as 75 alunas. As 25 professoras e auxiliares estavam hospedadas em outra parte do vale. 

Clássico por aqui: geada na madrugada. Não é por acaso que o lugar chama Frost Valley


E vamos ao que interessa: AULAAAAAAAAA! Fui para o acampamento sem nenhuma expectativa de como seria meu curso. Depois de 10 minutos de aula eu já estava hipnotizada pela professora Melissa Watson. Melissa é designer de moldes da McCall Company, a empresa de moldes mais tradicional dos Estados Unidos. A McCall faz os moldes Vogue e Butterick. Melissa desenvolveu uma linha para eles, que você encontra aqui.

Nosso curso era sobre como fazer ajustes em moldes comerciais. Melissa nos ensinou uma técnica desenvolvida pela mãe dela nos anos 70, o método Palmer Pletsch. Pra quem se interessa pelo assunto há um livro publicado: Fit for Real People. E ela tem um canal vídeos no You Tube




O segundo dia terminou com uma aula de tricô. Foi mais farra do que aula. Teve vinho (de novo!) e bolo de chocolate bem cremoso. Bom demais! Recebemos lãs e agulhas para fazer uma touca. Nome do projeto? Friendship hat. Tricotamos até altas horas!



DIA 3 -  O terceiro dia começou com uma aula de yoga. Eu pulei esse programa e dormi mais um pouquinho. E lá se foi o café da manhã e nossa trilha até chegar ao prédio onde foram realizadas as aulas. 


Curso para aprender a costurar sutiãs com a designer Amy Chapman, da empresa Cloth Habit






Costurar ou admirar a vista?




Agarrada no copo de chá entre uma aula e outra. Mais um costume americano que, literalmente, não largo mais!


O acampamento teve patrocínio da Singer. Usamos máquinas de costura novinhas e ferros de passar digitais. Eu nunca tinha usado um ferro desse. Achei ótimo e tive uma surpresa: fui sorteada e trouxe um para casa!



Salas imensas e espaço de sobra nas mesas para cortar moldes e tecidos. 
Curso de costura à mão com a designer de vestidos de noiva Brooks Ann Camper






Capricho de uma das alunas do curso de casacos: material bem organizado em um alfineteiro feito à mão

Na minha pausa rápida para o café aproveitei para espiar os outros cursos. O camp reuniu várias SEWLEBRITIES e eu estava curiosa para observá-las em ação, dando dicas sobre os próprios produtos. 

E é claro que não perdi a oportunidade de pedir uma foto com a Christine Haynes vestindo uma peça que fiz com um molde dela, o Emery Dress. Acompanho a Chrystine virtualmente há 5 anos. Tenho livros e moldes publicados por ela. No camp, ela ofereceu um dos cursos mais concorridos_ como fazer um casaco. 


A terceira noite do camp terminou, mais uma vez, de um jeito festivo! Fomos bater papo em volta da fogueira assando marshmallows. Olha, eu jurava que isso só existia em filmes do Snoopy! As campers foram super gentis e me ensinaram como assar e comer. Depois de molinho, elas colocam uma moeda de chocolate no meio e fazem um sanduíche com 2 biscoitos tipo cream craker. Tem até nome: s'mores! Não tem como um trem desse não dar certo!! Bom demais. 



DIA 4 - Madrugamos para fechar as malas, desocupar o alojamento antes do café da manhã e aproveitarmos as últimas horas no camp. Projetos prontos, era o momento certo para relaxarmos e curtirmos as atrações de Frost Valley. A lista era longa: escalada, tirolesa, arco e flecha, aula no aviário ou aula sobre como aproveitar melhor os recursos da máquina de costura. Eu não tive dúvida quando vi haveria chance de fazer mais uma trilha na montanha. 



A trilha foi mais longa do que as dos dias anteriores: duas horas de caminhada até chegarmos a uma cachoeira. A queda d'agua não era grande coisa, mas o trajeto foi um dos mais bonitos que já vi na vida. Senti muita paz no meio da floresta laranja ao olhar as árvores refletidas no lago. Sim! Cena de filme....


Antes de partimos ainda teve festa de premiação! Duas campers levaram máquinas de costura Singer. Outras ganharam prêmios mais engraçados. Eu levei o divertido título de The Imperial Foreigner, diante da minha dificuldade de ligar com as polegadas no lugar dos centímetros durante o meu curso de ajustes. 

No encerramento, a Jennifer chorou e nos emocionou ao relatar que para ela o acampamento é mais do que um business. E ela não precisava nem ter explicado porque ela demonstrou isso com atitudes nos 4 dias. Estava sempre com sorrisão no rosto, seja quando estava catando lixo das salas, resolvendo pequenos problemas, perguntando se precisávamos de algo especial.


Hora de pegar o ônibus. E lá fui eu tricotando ao lado da Liz Landau. Lembram o nome do projeto? Friendship Hat.



Fim de acampamento e uma certeza: please, guarde minha vaga para 2017!!!