sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O fim de um bom começo


Ainda que eu viva mais 100 anos, jamais terei um ano como 2016. Foi tudo tao intenso que por mais que eu procure, não conseguirei resumi-lo em adjetivos. Eu sei que pode parecer cliche, mas não foi. Ou foi e nos so confirmamos que o cliche pode ser a realidade. 

Começamos 2016 as avessas (por ótimos motivos) e prontos para literalmente iniciar uma vida nova. Deixamos nossa casa grande e montada em Brasilia e nos mudamos na primeira semana do ano para uma casa de bonecas nos Estados Unidos. 

Cada um resumiu a vida em 2 malas_ o que significou nada de Legos para as crianças, poucas roupas e sapatos pra mim e piano vendido pelo marido. Tentamos fazer tudo com leveza. E o tempo todo so tínhamos um mantra: "sem pressa". E assim, sem pressa, preenchemos cada canto da casa. Primeiro  compramos as camas, depois, loucas, mesa e cadeiras para a cozinha (veja ai a Alice tranquila comendo no chão!), computador e itens de escritório para o marido, agasalhos para enfrentarmos a neve, maquina de costura e tesouras (como sobreviver muito tempo sem costurar?).




Resolvida a escola do Lucas e da Alice e reestabelecida a nova rotina de trabalho do Juliano, foi hora de pensar em mim. A mudança foi ainda mais drástica para mim do que para eles porque o marido e os filhos continuariam as atividades que ja exerciam no Brasil_ a escola e o trabalho. Ja euzinha mudei de pais, de casa e de vida. Para vir, deixei a profissão que me deu tantas conquistas, alegrias e dores de cabeça. Uma jornada que começou em 1997 e seguiu ate 2015, período em que tive rarissimas pausas para respirar (quem e  ou ja foi jornalista sabe bem do que estou falando...).

Mantive o mantra o ano todo: sem pressa. O primeiro passo (e o mais desafiador) foi aprender a desacelerar. Foram tantos anos no esquema "nunca desliga", que levou um tempo ate o meu corpo compreender que eu, enfim, teria manhas para ler, escrever, costurar, cozinhar, organizar uma gaveta. Eu sei que quando estamos no olho do furacão, trabalhando 12 horas por dia, pensar na possibilidade de um dia a dia assim parece um sonho moleza de ser colocado em pratica. Mas, pelo menos pra mim, foi preciso um tempo ate eu me adaptar.





Nao foi um processo sofrido, mas levou um tempo ate eu me reencontrar. Assim, surgiu meu segundo mantra: "simplificar". Abri a cabeça e aprendi com os americanos. Que povo pratico! Impressionante. Aqui não ha drama por vivermos sem alguém para ajudar com as tarefas diárias da casa. Empregada e coisa de milionário e todos os serviços custam uma pequena fortuna, por isso as famílias aprendem a se virar sozinhas. 

Desde pequenas, as crianças executam as tarefas do lar para ajudar a casa manter ordem. Lucas e Alice logo entraram na dança. Virou a coisa mais banal do mundo tirar os pratos sujos da mesa quando  acabam as refeições, lavar a louca, arrumar a própria cama e dobrar as roupas retiradas da secadora. 


Comprou moveis? Se liga porque aqui nos Estados Unidos, eles ate entregam na sua casa, mas deixam as caixas e bye-bye... Nos tivemos que nos virar e aprender a montar tudo sozinhos. E depois de pronto veio aquela sensação "eu que fiz" que nos, crafters, conhecemos bem. Meu marido ficou super animado: '' sou da turma do DIY agora". Yeah! Do It Yourself!

Eu tive a chance, pela primeira vez na vida, de levar e buscar as crianças na escola e atividades, cozinhar para a familia, ir ao supermercado sem pressa. Nunca tinha conseguido encaixar todas essas atividades, com calma, em um dia de semana em Brasilia, quando trabalhava como jornalista. Estava sempre doida, sem fôlego, correndo para cumprir a agenda "madrugar na academia, fazer meu suco verde, trabalhar, buscar criança, dar conta de uma coisa ou outra para a casa''. Vivia entre opções: hoje sera ir a padaria ou pegar os meninos? Eu morava longe do centro e o jeito era escolher. As vezes (quase sempre) queria fazer tudo ao mesmo tempo e me embananava. 

Aqui a vida me obrigou a parar. E eu não briguei com a realidade. Apenas resolvi tentar entende-la e me adaptar. Decidi viver cada momento com intensidade, mas "sem pressa". Assim passei 4 estações e vi vantagens e qualidade em todas elas _ mesmo no meio de uma tempestade de neve que durou 3 dias.

Desacelerar era exatamente o que eu precisava. E eu sou grata pelo destino ter me concedido isso da melhor forma possível. Atencao! Desacelerar não significa parar, nem morrer de preguiça. Em 2016 trabalhei e estudei bastante (atire  a primeira pedra quem acha que cuidar da casa e de duas crianças não da trabalho), mas sem deadline, sem aperto, sem coração saindo pela boca. E eu me senti feliz assim. 

Por isso concluo que 2016 foi "o fim de um bom começo". Foi o fim de um ano que me fez parar para me escutar e me compreender. E acredito que esse e o começo para toda boa mudança. 








terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Lãs, tecidos e aviamentos: as melhores lembranças de uma viagem


O que você traz para casa na bagagem quando volta de uma viagem de férias? Conheço gente que traz temperos, vinhos, sapatos e por aí vai. Minha mala pesa pra valer com as sacolas de tecidos e aviamentos que eu sempre dou um jeitinho de comprar. A-do-ro garimpar em lojas pelo mundo a fora. Seja na minha Buritis, New York ou em Paris! Quando organizo uma viagem já mando um google à procura de locais onde encontrarei lojas. Sempre arremato ótimos achados. 

A novidade das minhas férias, quando estive em São Paulo para visitar a família, foi o novo amor pelas lãs. Alegria, alegria, marquei uma tarde de tricô com a Francine Lacerda, professora de costura que super indico, e a Graziella Moretto, do site Garota Prendada. Foi curioso bater papo com a Graziella um dia depois de vê-la acompanhada do marido, Pedro Cardoso (como não dizer: o  inesquecível intérprete do personagem Agostinho Carrara, da Grande Família) brilharem no teatro com a peça O Homem Primitivo. O texto escrito pelo casal rende muito assunto... Eles debatem ironicamente o poder do patriarcado imposto pela sociedade, que sempre limitou a participação das mulheres na vida cultural, profissional e política. Bingo! Acertaram! Essa foi a pauta do ano _pelo menos aqui nos Estados Unidos, onde eu moro_ depois da disputa Hillary e Trump.


O encontro foi na Novelaria, em Pinheiros. A conversa seguiu animada, o chá estava bem gostoso e quando a loja estava praticamente fechando resolvemos parar a conversa para dar uma olhada nas mercadorias. 

Eu ainda tenho muita dificuldade para encontrar lãs. Fico confusa com a variedade, a grossura dos fios e preciso de ajuda para selecionar o material adequado para cada projeto. A Francine me indicou esse fio uruguaio, da Malabrigo. Assim que bati o olho na cor, amei. 


O tom de amarelo me fez refletir sobre o que encontraria quando voltasse para casa: meu primeiro outono como moradora de DC. E eu estava certa: Washington ficou mais linda do que nunca.




As agulhas (de plastico para evitar  problemas no aeroporto) e a bela la me acompanharam no voo do Brasil para os Estados Unidos. Foi tao bom voltar pra casa tricotando minha golinha, relembrando as ferias e pensando no futuro!

Tai! Projeto facil, rapido e que ja foi incorporado no meu guarda handmade!!




terça-feira, 1 de novembro de 2016

Acampamento de costura nas montanhas


Desembarquei em uma Nova York com céu azul e temperatura gostosa, nada daquelas correntes de vento geladas que surgem nessa época do ano. Ponto de encontro: entre as ruas 10 e 11, esquina com a 8 Avenida, bem pertinho da Penn Station. 

Foi moleza encontrar o grupo: 100 mulheres se apertando na calçada com malas gigantescas. Quem passava por ali poderia até pensar que se tratava de uma excursão de compras na Big Apple. Bobinhos! Dentro daquelas malas havia réguas, papel de molde, tesouras e aviamentos.

Ninguém no grupo conseguia disfarçar a cara boba de felicidade. Fiquei quieta observando o burburinho e pensando: ai que coisa boa e segura é estar entre um grupo de costureiras. Logo uma senhora puxou conversa comigo. Deixei minha mala com ela e corri em um Starbucks para buscar um lanchinho antes de partirmos.

Dois ônibus nos levaram até Frost Valley. Só a estrada já valia o passeio. Aos poucos os prédios e belas construções de New York foram substituídos por árvores de cores que eu nunca tinha visto. Folhas laranja, amarelo, dourado e vermelho tomavam conta das montanhas. Eu até levei um livro, mas me pareceu meio idiota trocar a paisagem na janela pelas páginas que eu poderia devorar em casa.




O Camp Workroom Social é uma idéia mirabolante da novaiorquina Jennifer Wiese. Ela tem um estúdio no Brooklyn onde durante o ano recebe artistas e alunos para cursos de fim de semana. Eu estive no estúdio e prometo um post sobre isso.

Essa foi a segunda edição do acampamento, mas o profissionalismo e a organização eram tão impressionantes que parecia já ser realizado há décadas. Os summer camps são uma tradição  na cultura americana. As crianças começam a participar cedo, por volta dos 8 anos. E eles costumam ser temáticos. Tem camp de esportes, de crafts, de dança. 

O acampamento reuniu os maiores nomes da costura moderna nos Estados Unidos, um mercado conhecido aqui como "indie patterns", dos moldes independentes.  Ao nos inscrevermos já tínhamos que optar por um dos 6 cursos. Eu me inscrevi 4 meses antes e já encontrei pouquíssimas opções. Alguns cursos foram muito concorridos e já estavam lotados. 

O desembarque no YMCA Frost Valley, em Catskills Mountains, NY

De boca aberta diante da beleza do outono nas montanhas!

Das 100 pessoas que estavam no camp, meu porto seguro era a Isabelle Durieux, minha amiga belga e vizinha em DC
O esquema era de acampamento, mas ufa... não ficamos em barracas. Dividimos quartos grandes com outras campers. Confesso que me bateram os 10 anos de idade quando vi que ia dormir em cima de um beliche pela primeira vez na vida! Bem divertido.

Encontramos os beliches com nossos nomes e uma sacolinha de mimos: mapa do YMCA Frost Valley (extremamente necessário! O lugar era gigantesco!), crachá, uma lanterna de cabeça (muito usada! À noite não dava para enxergar um palmo), camiseta, programação detalhada com horários (ai de quem atrasasse! Aqui tudo funciona pontualmente) e um bordado para guardar de recordação.



DIA 1 - Saímos de New York City pontualmente ao meio dia. Chegamos a Frost Valley antes das 4 da tarde. Depois de mostrarmos passaportes e documentos, conhecemos nosso alojamento, deixamos malas e seguimos para a primeira reunião. Fomos apresentadas às professoras. De lá, fomos jantar no refeitório. Ah! Um costume americano que já me adaptei e adoro: jantar aqui é servido às 6 da tarde. 

Na primeira noite, depois do jantar, já fomos a um evento super esperado: a festa do pijama. Foi demais! Fomos incentivadas a levar pijamas costurados por nós. Imagina isso? Um jantar com 100 costureiras vestidas com pijamas handmade? 

Teve vinho, champanhe, docinhos gostosos e muitas fotos (opa! Esqueci de tirar foto do meu pijama....). A festa foi em uma casa construída em 1901 que está conservada exatamente como era. Piso e paredes de madeira, quadros, esculturas e móveis de época. Um charme! 



Botas e pijamas porque a noite estava gelada! 10 graus!
DIA 2 - O segundo dia começou da melhor forma possível! Antes do café da manhã, às 7 em ponto, nos reunimos para fazer uma caminhada de 1 hora nas montanhas. Sim, estávamos meio lentas depois do vinho na festa do pijama, mas não íamos perder a vista, né??

Detalhe: entendemos o nome do vale. O gramado em frente ao prédio do alojamento amanheceu todo congelado.



Trilha às 7 da manhã. Fazia 6 graus.


O prédio do nosso alojamento. Aqui estavam as 75 alunas. As 25 professoras e auxiliares estavam hospedadas em outra parte do vale. 

Clássico por aqui: geada na madrugada. Não é por acaso que o lugar chama Frost Valley


E vamos ao que interessa: AULAAAAAAAAA! Fui para o acampamento sem nenhuma expectativa de como seria meu curso. Depois de 10 minutos de aula eu já estava hipnotizada pela professora Melissa Watson. Melissa é designer de moldes da McCall Company, a empresa de moldes mais tradicional dos Estados Unidos. A McCall faz os moldes Vogue e Butterick. Melissa desenvolveu uma linha para eles, que você encontra aqui.

Nosso curso era sobre como fazer ajustes em moldes comerciais. Melissa nos ensinou uma técnica desenvolvida pela mãe dela nos anos 70, o método Palmer Pletsch. Pra quem se interessa pelo assunto há um livro publicado: Fit for Real People. E ela tem um canal vídeos no You Tube




O segundo dia terminou com uma aula de tricô. Foi mais farra do que aula. Teve vinho (de novo!) e bolo de chocolate bem cremoso. Bom demais! Recebemos lãs e agulhas para fazer uma touca. Nome do projeto? Friendship hat. Tricotamos até altas horas!



DIA 3 -  O terceiro dia começou com uma aula de yoga. Eu pulei esse programa e dormi mais um pouquinho. E lá se foi o café da manhã e nossa trilha até chegar ao prédio onde foram realizadas as aulas. 


Curso para aprender a costurar sutiãs com a designer Amy Chapman, da empresa Cloth Habit






Costurar ou admirar a vista?




Agarrada no copo de chá entre uma aula e outra. Mais um costume americano que, literalmente, não largo mais!


O acampamento teve patrocínio da Singer. Usamos máquinas de costura novinhas e ferros de passar digitais. Eu nunca tinha usado um ferro desse. Achei ótimo e tive uma surpresa: fui sorteada e trouxe um para casa!



Salas imensas e espaço de sobra nas mesas para cortar moldes e tecidos. 
Curso de costura à mão com a designer de vestidos de noiva Brooks Ann Camper






Capricho de uma das alunas do curso de casacos: material bem organizado em um alfineteiro feito à mão

Na minha pausa rápida para o café aproveitei para espiar os outros cursos. O camp reuniu várias SEWLEBRITIES e eu estava curiosa para observá-las em ação, dando dicas sobre os próprios produtos. 

E é claro que não perdi a oportunidade de pedir uma foto com a Christine Haynes vestindo uma peça que fiz com um molde dela, o Emery Dress. Acompanho a Chrystine virtualmente há 5 anos. Tenho livros e moldes publicados por ela. No camp, ela ofereceu um dos cursos mais concorridos_ como fazer um casaco. 


A terceira noite do camp terminou, mais uma vez, de um jeito festivo! Fomos bater papo em volta da fogueira assando marshmallows. Olha, eu jurava que isso só existia em filmes do Snoopy! As campers foram super gentis e me ensinaram como assar e comer. Depois de molinho, elas colocam uma moeda de chocolate no meio e fazem um sanduíche com 2 biscoitos tipo cream craker. Tem até nome: s'mores! Não tem como um trem desse não dar certo!! Bom demais. 



DIA 4 - Madrugamos para fechar as malas, desocupar o alojamento antes do café da manhã e aproveitarmos as últimas horas no camp. Projetos prontos, era o momento certo para relaxarmos e curtirmos as atrações de Frost Valley. A lista era longa: escalada, tirolesa, arco e flecha, aula no aviário ou aula sobre como aproveitar melhor os recursos da máquina de costura. Eu não tive dúvida quando vi haveria chance de fazer mais uma trilha na montanha. 



A trilha foi mais longa do que as dos dias anteriores: duas horas de caminhada até chegarmos a uma cachoeira. A queda d'agua não era grande coisa, mas o trajeto foi um dos mais bonitos que já vi na vida. Senti muita paz no meio da floresta laranja ao olhar as árvores refletidas no lago. Sim! Cena de filme....


Antes de partimos ainda teve festa de premiação! Duas campers levaram máquinas de costura Singer. Outras ganharam prêmios mais engraçados. Eu levei o divertido título de The Imperial Foreigner, diante da minha dificuldade de ligar com as polegadas no lugar dos centímetros durante o meu curso de ajustes. 

No encerramento, a Jennifer chorou e nos emocionou ao relatar que para ela o acampamento é mais do que um business. E ela não precisava nem ter explicado porque ela demonstrou isso com atitudes nos 4 dias. Estava sempre com sorrisão no rosto, seja quando estava catando lixo das salas, resolvendo pequenos problemas, perguntando se precisávamos de algo especial.


Hora de pegar o ônibus. E lá fui eu tricotando ao lado da Liz Landau. Lembram o nome do projeto? Friendship Hat.



Fim de acampamento e uma certeza: please, guarde minha vaga para 2017!!!